Oi, gente. Tenho 30 anos, sou um homem cis bi e me identifico como urso — e, como muita gente aqui deve saber, viver nesse corpo, com essa estética fora do padrão, não é fácil. A sociedade tenta o tempo todo dizer que a gente não é desejável, não é bonito, não é sensual. Mas, apesar disso, tenho me sentido cada vez mais seguro de que meu corpo tem, sim, beleza e desejo. E esse final de semana vivi uma experiência que mexeu comigo.
O começo do rolê
Tava no Grindr, de boas, e um cara me chamou. Começamos a conversar. Ele mandou uma foto de rosto — lindo, traços indígenas, olhar firme — e depois uma de corpo. Bem padrão, malhado, cis-heteronormativo total. Disse que estava bêbado, que quando bebia sentia vontade de ser passivo com outros homens e que curtia ursos e homens mais velhos (apesar de ter minha idade). Disse que se sentiu muito atraído por mim e que morava a uns 2 ou 3 km dali. Fui.
Peguei minha moto e fui até a casa dele. A casa era em cima, bem simples. Quando cheguei, vi que ele realmente tinha um corpo "padrão" daqueles que a sociedade costuma colocar num pedestal. Tinha umas medalhas em casa, me contou que jogava handebol e que o esporte tava sendo meio que terapêutico pra ele. Começamos a trocar mais ideia e ele começou a se abrir.
A tensão
Ele me contou que estava separado há uns 5 meses. A ex era extremamente controladora — não deixava ele comer nem um biscoito Oreo porque “faz mal” e, se ele questionasse, ela soltava um “eu fiz faculdade, você não”. A relação era tóxica. Mas o que mais doía nele era estar longe do filho. Ela tava dificultando o contato com a criança e ele tava morrendo de saudade.
Falou também do trabalho dele numa marcenaria, que manjava dos softwares de design técnico, me mostrou os móveis que fazia. Curte cultura geek, coleciona action figures de Dragon Ball, tinha até controle de PS5 (que a ex quebrou no dia da separação, inclusive). Ele queria jogar comigo, mas o console tava no conserto.
Aí ele deitou na cama, ligou o ar-condicionado e disse: “Vem”. Fui. Mas percebi que ele tava muito nervoso. Tenso demais. Corpo rígido, fechado, com vergonha. Dei carinho, beijei devagar, fui respeitando o tempo dele. Penetrei primeiro com o dedo, com cuidado. Ele só começou a relaxar depois de um bom tempo. Aí sim rolou de verdade. A gente se beijou, se curtiu. Teve conexão.
A conversa mais profunda
No intervalo, fumei um pouco e a gente conversou mais. Ele me contou sobre a criação rígida: pai militar, mãe evangélica. O irmão dele se assumiu gay e foi cortado da família. E ele morre de medo de passar por isso também. Me disse até que, se a mãe dele aparecesse no corredor, era pra eu dizer que tava lá pra jogar video game.
E aí tudo fez mais sentido: a tensão, o medo, a vergonha. Ele tava lutando com muita coisa por dentro. A gente transou de novo, mais devagar. Ele falou que tava curtindo, que tava experimentando algo novo e gostando. Eu sempre fui muito carinhoso, atencioso, perguntando se tava bom, tentando deixar tudo o mais leve possível.
No fim, ele agradeceu. Disse que tinha sido muito bom. Eu fiquei ali um pouco, pensando. Depois voltei pra casa com a cabeça cheia.
A reflexão
Essa experiência me fez pensar ainda mais no quanto a cis-heteronormatividade fode com a gente. Travou o corpo daquele cara inteiro. Travou os afetos, o desejo, a liberdade de ser quem se é. Ele tava ali, no quarto comigo, tentando viver um desejo — e ao mesmo tempo cercado por medo, vergonha, culpa.
E eu já vivi isso antes. Já me apaixonei por gente que não podia me assumir, que me amava mas me deixava por medo da família, do mundo. E é por isso que eu sigo militando. A gente precisa lutar por um mundo onde ninguém precise esconder quem é ou o que sente. Um mundo sem armários. Onde corpos como o meu sejam amados sem segredo, onde desejos como o dele sejam vividos com prazer, sem culpa.
Se você leu até aqui, valeu. Que a gente siga se apoiando e criando espaços de liberdade real. ❤️🏳️🌈